Um pouco da minha infância

Por Maria Marta Diniz da Silva

“Eu sempre morei na Rocinha, aliás, nasci. Minha infância foi muito boa. Morava no antigo Campo da esperança que hoje é chamado de Valão. Não tinha brinquedo, pois minha família sempre foi muito pobre, mas tinha espaço para brincar de pique-bandeirinha, pipa, corda, amarelinha, roda e queimado, brincadeiras que hoje quase não se vê por falta de espaço. Ganhei uma boneca da madame da minha mãe, chamada Jaqueline, mas minha mãe deixava a boneca em cima do guarda-roupa para não quebrar. Outra brincadeira do meu tempo de criança era amarrar uma nota em uma linha e quando alguém abaixava para pegar a gente puxava a linha.

Nessa época não havia luz elétrica na minha casa somente em alguns pontos da rocinha. Fazíamos lamparinas com lata de leite ninho com uma vela dentro. Brincávamos muito de sombra na parede e lembro que meu pai brigava com a gente dizendo que fazia mal brincar sozinho. Quando chovia, a gente ficava brincando de barquinho dentro da vala, nossa, em tempo de pegar uma doença! Finca-finca também era legal, a gente pegava um prego e íamos brincar no chão depois da chuva. Bola de gude nem se fala!

Era muito legal quando a gente via nosso pai sair correndo. Cito muito meu pai pois, naquela época, minha mãe trabalhava fora e meu pai ficava em casa consertando guarda-chuva e máquina de costura. Eu ia muito para Capurí, em São Conrado, na casa da Cristiane, minha melhor amiga de infância. Gostávamos muito de balançar e o tio dela tinha feito um balanço numa árvore. Era uma briga pois todos queriam ficar balançando. E a bicicleta que a Cristiane arranjou para poder me ensinar a andar! Levei um belo tombo que chegou a quebrar a corrente da bicicleta. Até hoje nunca mais subi em bicicleta. Não aprendi porque ela estava me ensinando na ladeira e não deu certo. Escorreguei muito na ladeira em cima de um pedaço de papelão, isso lá no Capurí. Também cheguei a brincar muito de comidinha, colocava arroz e feijão dentro da lata de leite ninho e tentava cozinhar, o que muitas vezes não dava certo. Sempre tinha um adulto que dava aquele flagrante e uma bela bronca. Bem, foi ou não foi uma bela infância?”

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