Que expressão é essa?

A “ludicidade da memória”, que expressão é essa?

O termo surgiu em novembro de 2011, quando a equipe do CIESPI —Centro Internacional de Estudos e Pesquisas sobre a Infância— revisitou o acervo do Projeto Rede Brincar e Aprender, já pensando no desenvolvimento do projeto A ludicidade da memória: práticas museais no Horto e na Rocinha, que foi realizado pelo CIESPI em parceria com o IBRAM – Instituto Brasileiro de Museus.

As pesquisas e reflexões no âmbito deste projeto rememoraram e/ ou sistematizaram ações de memória comunitária ocorridas nestas duas comunidades do Rio de Janeiro, em que o CIESPI trabalha há muitos anos. Seus resultados podem ser conhecidos no blog  https://ludicidadedamemoria.wordpress.com/

As comunidades do Horto e da Rocinha foram destacadas em nossas reflexões por serem emblemáticas de trajetórias de pesquisa na área de memória social que passearam pelas trilhas da ludicidade em atividades como a Brinquedoteca Carretel de Folia e as Memórias Brincantes e, depois, foram levadas ao desenvolvimento de centros locais de memória. Com o passar dos anos, consolidaram-se dois Museus de Percurso: Sankofa na Rocinha e Museu do Horto.

No Horto e na Rocinha, práticas lúdicas formaram percursos que foram se tecendo por entre histórias. E estas, por sua vez, foram trilhando ideias e desejos de memória, em rotas mais e mais imbricadas nas matas da Floresta da Tijuca, banhadas por águas comuns e rastros quilombolas que se tornaram acervos museológicos.

Assim, novos trajetos de conhecimento foram percorridas de maneira lúdica, revisitando saberes tradicionais, sempre a partir das percepções e dos olhares animados dos envolvidos nas ações, suscitadas por brinquedos e brincadeiras acionados pela identidade dos dois lugares –Horto e Rocinha.

O que a memória tem de lúdico?

Walter Benjamin escreveu muito sobre a capacidade mimética das brincadeiras de crianças e daí diferenciou a “magia” da brincadeira infantil da materialidade do brinquedo.  A criança quando brinca não reproduz narrativas, mas cria e recria realidades. Reconta e reconstrói a tradição, reinventando-a. A plasticidade da memória cria possibilidades com múltiplas combinações, como na brincadeira com cirandas e caleidoscópios, em cada olhar e em cada fazer.

Memória evocada pelo brinquedo/ brincadeira;
Memória que tece brinquedos e brincadeiras;
Brinquedos e brincadeiras que fazem histórias;
Memórias brincantes e infâncias memoráveis…

A ludicidade da memória também significa pensar temas que derivam do lúdico e do universo da criança, enquanto lógica de pesquisa e reflexão. Nessa perspectiva, os suportes de memória são os brinquedos, os jogos, as brincadeiras, as cantigas, as rodas…

Como a memória entrecruza o brincar, as brincadeiras e a ludicidade de cada lugar de memória trabalhado por esses dois museus (do Horto e da Rocinha), ambos Pontos de Memória do IBRAM ? Que redes e que histórias foram preservadas e recontadas nessas comunidades?

Suscitando, assim, desejos de memória que se tornaram museus em cada uma dessas comunidades, o que as práticas do projeto Rede Brincar e Aprender tiveram de significativas a ponto de marcarem seus públicos e instituirem  linguagens e construções locais de memória: brinquedos, mapas, objetos, depoimentos, quadros, livros, etc. que expressam as localidades pelo olhar da criança, do jovem e também dos adultos envolvidos, registrando memórias e percursos a serem experimentados e percorridos para serem ressignificados e recontados?

Nesse sentido, brinquedos e brincadeiras são suportes da memória. Essa linha teórica emana dos ensaios de Walter Benjamin sobre o brincar infantil no início dos anos 1920 e pretende seguir buscando relações da memória com o brincar em outros textos [de Benjamin (sobretudo o livro de 1984) e outros autores] e contextos [Rocinha, Horto], para continuar refletindo conceitualmente sobre a expressão “A ludicidade da memória”.