Práticas colaborativas: práticas de liberdade

Por Carla Daniel Sartor

A construção coletiva dos brinquedos no Ponto de Cultura Centro de Cultura e Educação Lúdica da Rocinha supõe uma experiência com o outro, com saberes e sensações que nos permitem a expansão da potência vital. Além disso, aliada ao conhecimento sensorial, a leitura crítica despertada pelas diferentes linguagens artístico-culturais refina a percepção e a apreensão da realidade do mundo.

Outros canais, conexões e saberes derivados da sensibilidade, do fazer atento e compartilhado. Apostamos na criação, na valorização de diferentes experiências, na reflexão, na construção conjunta e nas transformações de caráter processual. A proposta de criarmos brinquedos em conjunto nos trouxe imensas surpresas, mas também confirmações, principalmente a de que é possível transitarmos entre os nossos desejos e os desejos dos outros. Os brinquedos criados convidam à experimentação, estão abertos a diferentes públicos e brincadeiras, das conhecidas, às inventadas.

Destacamos ainda, que a interação entre as crianças, jovens, adultos e os mais velhos nas experiências coletivas ampliam perspectivas e a possibilidade de trocas. As experimentações e as criações enquanto práticas de liberdade levam a reflexões sobre o vivido e a reinvenção do mundo.

Assim, brincar nos leva a descobertas. Entrega, presença e deslocamento. Às vezes, até encontramos outras saídas para as questões que nos são impostas. Em busca da transformação das nossas relações com o mundo, consideramos que as práticas artístico-culturais têm claras influências na formação e autonomia dos sujeitos. E enquanto formas e expressões da vontade de liberdade, configuram-se em alternativas à atroz ordem vigente que reproduz individualismos e a desigualdade social. Isso se relaciona diretamente com questão das políticas públicas culturais, que podem viabilizar experiências estéticas e coletivas que permitam aos sujeitos inúmeras escolhas em sua vida pessoal, profissional e em sociedade.

A proposição de que a arte, a cultura e a política são “exercícios experimentais de liberdade”[1], não supõe, contudo, que haja uma transposição direta entre uma e outra, o que implicaria em riscos, principalmente o da instrumentalização dos processos, colocando-os de antemão a serviço de algo. Então, ousemos criar e brincar para sentir a vida, inteira. E se é para aprender alguma coisa, que aprendamos a ser felizes.

[1] Pedrosa nos remete aos “Exercícios experimentais da liberdade” (In Amaral, 1975); (Pedrosa apud Arantes, 1991, p. 29).

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