O primeiro olhar

Por Nathercia Lacerda

Quando uma criança chegava pela primeira vez na Brinquedoteca Peteca, invariavelmente parava na porta. Os olhos se voltavam para a sala repleta de brinquedos e crianças. Pelo chão, carrinhos, bonecas, jogos de tabuleiro, naves espaciais. Pela sala, meninos e meninas vestidos de roqueiros, bailarinas, princesas, reis, monstros, movimentavam-se cuidando de filhos, indo ao mercado, cozinhando, preparando uma festa, um baile, indo à escola, escrevendo no quadro de giz, desenhando, folheando um livro, mergulhados na encenação cotidiana.

O umbral da porta era como um portal para o amplo universo do brincar. Os olhos percorriam, surpresos, estantes, cores e gestos. Muitas perguntas podem ser lidas nesse primeiro olhar: Existe isso? Que mágica é essa? Tantos brinquedos e eu posso pegá-los; posso brincá-los? Quem são esses que mexem aqui e ali, sentam e levantam, falam e riem sem serem repreendidos? Será que eu posso? Será que consigo?

Muitas vezes era necessário que uma mão de criança ou de adulto brincante se estendesse em convite para que o portal fosse transposto.