Naquele tempo

Por Lino dos Santos Filho (Tio Lino)

Folia de Reis

“Naquele tempo existia um folclore muito bonito na nossa comunidade que era a Folia de Reis e, de madrugada,  aquele apito: Piiiiiiiii! Bum! A gente já sabia. E aí nós falávamos  assim: “Vem descendo a Rua Um!”  Nós no passo na batida do tambor.  Minha mãe tinha um terreiro, minha mãe dava almoço pra eles. E aí eu rezava pra visita todo o dia chegar em casa. Minha mãe só fazia coisa boa: café, era batata doce, aipim, inhame, mamãe matava galo, fazia aquela panelada de galo com quiabo, angu… Jesus! Sai de baixo! Aí eu ficava chateado porque a gente não comia aquilo mas quando vinha a visita da Folia de Reis… carne de sol, aquela carne bonita. Vinha gente do subúrbio que vinha fazer isso na Rocinha. Mamãe recebia eles, mamãe tinha que rezar a bandeira, tinha um São Pedro que vinha na bandeira. Existia vários palhaços. Então era uma coisa bacana porque quando as Folias de Reis se encontravam, era uma briga dos palhaços … a gente vaiava eles. É uma briga dos palhaços pelos territórios. Minha mãe cansava de discutir  com os palhaços. “Você vai comer na minha casa, vou servir você”…

Avô índio

“Meu avô era caboclo, era índio.  Engraçado que eu falava com ele assim: “Ih vô, você não tem botão na frente da sua calça não?” Ele usava tipo um pijama. É um barbante…  Você fazia a camisa e a calça de pano de carne seca. Engraçado que eu me lembro disso. Ele era um mulato, cabelo pretinho. Ele não usava henê não. Mas o cabelo… eu nunca vi! Cor de canela! E a roupa que ele usava, roupa que chamavam de carne seca, vinha de Portugal, não vinha aqui do Brasil não. Poucas pessoas podiam usar aquilo porque era caro. Ele era parente do pessoal do Seu Prata que tinha um terreiro também lá dentro da mata. Usava dente de ouro e ele era fortão e ele quase não ria, as pessoas respeitavam ele. Era um guerreiro, tinha uma força espiritual enorme também. E o meu avô era parente deles. Nós morávamos na casa do meu avô que era feita de barro e bambu.”

Bichos, frutas e água

“Eu comia muito carne de paca. Meu avô falava assim pra mim: “Hoje tem carne de paca.” Aqui na Rocinha tinha muita paca. Tinha paca, tinha tatu. Eu comia muito tatu, paca, lagarto, cada lagarto maior do que o outro. Tinha gambá. Porque meu avô falava assim…. ele chegava no meu ouvido e falava assim: “Eles fogem de lá pra vim pr’aqui sabe por que? Porque aqui tem comida, tem muita fruta: jaca, jabuticaba. Tinha muita jabuticaba, tinha muito jamelão. Tinha uma cachoeira ali na curva do S. Quando a gente vinha da praia… fantástica a cachoeira, tomei banho ali. A gente carregava água dali porque não tinha água em casa.”

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