Crianças na Rocinha

Rocinha – população migrante e mudante (Expressão utilizada nos estudos do professor Jader Janer do Departamento de Educação da UFF, ao se referir as crianças que mudam-se constantemente de casa, porém, dentro da mesmo cidade. Trata-se de uma estratégia de sobrevivência devido a falta de recursos para manter uma moradia fixa).

A família na Rocinha é formada em média por sete pessoas entre avós, filhos e netos, oriundos da classe trabalhadora, em sua maioria emigrados do interior do Estado do Rio de Janeiro e dos diferentes estados brasileiros, mais particularmente das regiões norte, nordeste e sudeste.

Uma das principais questões que envolvem os núcleos familiares da comunidade, hoje, é o alto índice de gravidez precoce. Com 60% da população constituída por jovens, tem-se aí uma alta projeção no número de crianças que será gerado nos próximos anos.

Este quadro familiar se agrava pela baixa escolaridade e falta de uma formação profissional dos responsáveis pela criança, gerando dificuldade de emprego. Uma das consequências mais imediatas é o trabalho infantil. Inúmeras crianças passam a contribuir para renda familiar carregando bolsas de compras nas portas de supermercados, transformando-se em pedintes, sendo levados à prostituição ou sendo cooptados pela criminalidade.

Os responsáveis desempregados ou que conseguem trabalho no mercado informal, recebem entre meio e dois salários e em muitos casos conseguem benefício de programas sociais, muitos pagando aluguéis para morar em casas pequenas, insalubres e de difícil acesso.

Importante também considerar que são as mulheres – mães ou avós – que, em sua grande maioria, assumem a responsabilidade pela criação das crianças separadas da figura paterna.

Com uma área ocupada de 877.575 m², segundo dados de 1999 do Instituto Municipal de Urbanismo Pereira Passos (IPP – RJ), a Rocinha cresceu com total falta de infraestrutura sendo hoje considerada uma das maiores favelas da América Latina com uma população estimada em mais de 150.000 habitantes (informações que instituições comunitárias locais utilizam para elaborarem seus projetos). Dados curiosos entretanto nos chamam atenção: em agosto de 1978, a revista Veja publica a existência de 145.000 moradores na comunidade; no ano  de 1989, o jornal O Globo declara que, segundo a 27° Região Administrativa, a população da Rocinha estaria estimada em 250.000 habitantes; em 2000, o IBGE demonstra que a comunidade tem uma população de 56.388 com 16.999 domicílios; hoje, com base nos 27.000 relógios instalados pela Light e nas ligações de TV a cabo, estima-se um mínimo de 120.000 habitantes.

Nesse contexto, diariamente chegam e saem famílias dos mais diversos cantos da cidade e país. Migram também entre as diversas localidades ou sub-bairros – Barcelos, Rua 1, Rua 2, Rua 3, Rua 4, Cachopinha, Vila Vermelha, Cachopa, Roupa Suja, Vila Verde, Macega, 199, Vila Cruzado, Laboriaux, Boiadeiro, Dionéia, Cidade Nova, Valão, Cesário, Portão Vermelho – quando não mais podem pagar aluguéis. Migrantes e mudantes.

Ficam no ar as perguntas: Quantos moradores existem hoje de fato na Rocinha? Quantas crianças circulam diariamente pela comunidade?

É nesse território e nessa realidade comunitária que crescem as crianças da Rocinha. Circulam entre inúmeras motos, vans, ônibus, carros; becos, escadas, ruelas, ruas largas, ladeiras; sons da rádio local, dos anunciantes de lojas, do trânsito intenso que se misturam sem interrupção; lajes, quadras, valas; escolas, igrejas, lojas de comércio variado.  Como convivem com o dia a dia agitado de uma comunidade que mais parece uma cidade dentro de outra cidade que é uma grande metrópole? Como se relacionam com o território? Como se comunicam? Como brincam? Andarilhos da (na) Rocinha.

Pautados por esse cenário, os membros da equipe do Centro de Cultura e Educação Lúdica da Rocinha participam, estimulam e promovem encontros, debates, formação de grupos, fóruns e redes comunitárias pela implementação de iniciativas que favoreçam a melhoria da qualidade de vida de crianças, em especial as locais, e que apontem para políticas públicas que contemplem seus direitos básicos, bem como os de suas famílias.