Ciranda das Cores

Por Vicente Barros

Mais que objeto, o brinquedo é um fenômeno que começa no desejo de brincar, e segue na busca pelos materiais para construí-lo, que também podem ser o outro, o espaço ao redor, ou o próprio corpo.

A construção coletiva de um brinquedo envolve uma série de experimentações com diferentes materiais, diferentes formas, a partir de uma intenção identificada, associada aos gestos e movimentos das crianças enquanto brincam. Esses gestos e movimentos observados e registrados são informações para a construção de objetos que são produzidos de forma simples para que as crianças sintam-se à vontade para brincar e interferir em sua forma, possibilitando diferentes usos.

As brincadeiras espontâneas que as crianças faziam na relação com esses materiais originaram o brinquedo Ciranda das Cores.

A Ciranda das Cores foi construída junto com Joana D’arc, que era dinamizadora da Brinquedoteca Volante do Horto, e com as crianças da Ladeira da Margarida, localidade no Horto, situada na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Lá, a sensação é de estar fora da cidade, as crianças ainda brincam na rua, o ritmo é outro, é de tranqüilidade.

Lá observei que, quando a criança brinca, ela cria um repertório de brinquedos e brincadeiras relacionadas ao local em que mora, a sua relação com esse espaço e com as outras crianças. Em uma das vezes em que estive na Ladeira da Margarida para brincar com as crianças, os meninos vieram me mostrar um novo brinquedo com o qual eles estavam brincando naquele momento, lá. Era o bobteco, uma atiradeira feita com cano de PVC e borracha de balão de encher. Eles contaram que foram os meninos mais velhos que os ensinaram a fazer o bobteco.

Esses brinquedos vêm sendo transmitidos através das gerações, atualizando-se, utilizando os materiais disponíveis no local. Numa outra tarde, conversei com Paulinho, avô de algumas crianças, que construía barquinhos de madeira. Falamos sobre sua infância, sobre o que achava da infância de seus netos. Contou suas histórias de menino, e o que vi com essa conversa é que as brincadeiras que brincava com as crianças, já eram feitas ali por seus avós. Pipa, pião, futebol, mata frango, bobteco, casinha, bola de gude.

Para brincar, muitas vezes as crianças usam somente o corpo, sem precisar de um suporte material para que a brincadeira aconteça. Por exemplo, numa brincadeira de roda, o próprio corpo é o instrumento de brincar, são as próprias crianças, seus próprios corpos em movimento, de mãos dadas, rodando e cantando que constroem o brinquedo.

No caso da Ciranda das Cores sua forma e variedade de cores, era um convite ao movimento, as brincadeiras eram inventadas, reinventadas, não existindo uma fórmula de como brincar. Para alguns, era um desafio brincar com aquele colorido; para outros, um momento de recordação, momento de descoberta, exploração, presença, riso, compartilhar.