Brinquedo vira rua, rua vira brinquedo

Por Lucas Pablo Silvestre de Oliveira

Quando criança costumava brincar na Rua 3, que foi o lugar onde sempre morei. A Rua 3 é uma localidade da Rocinha pouco complexa (se é q podemos definir assim), e fácil de descrever. Começa na Estrada da Gávea e termina na Rua 2 (e visse-versa), tem um emaranhado de becos que mais parecem raízes de um tronco, e levam a várias sub-localidades. Os espaços para se brincar eram poucos, na verdade nem sei se eram exatamente para brincar, mas acabaram se tornando.

Com o tempo e o crescimento vertical da Rocinha, esses poucos espaços foram se transformando em prédios, casas ou terrenos de alguém, e logo fizemos dos becos e rua nosso espaço de brincar.

Na minha infância, brinquei de muita coisa. Pulei corda, pulei carniça, joguei capoeira (brinquei de jogar capoeira), toquei em bloco de carnaval infantil, brinquei de bola de gude, rodei pião, iô-iô. Brinquei de roda, galinha choca, bento que o bento é o frade, e uma infinidade de brincadeiras com bola (3 cortes, 2 toques, golzinho, altinho…). Lembro-me também de quando subíamos em árvores para pegar frutas. Na Rua 3 eram poucas. Tinha uma de Jamelão, uma de jaca e outra (a mais difícil) de manga. Essa última, nós tínhamos que subir num prédio, que dava pra um dos galhos da árvore, e pegar a fruta com um cabo de vassoura e lata. Era divertido, a fruta nem sempre comíamos, pois sempre que íamos lá elas estavam verdes, daí às vezes a gente colocava sal e comia.  Porém, o que mais marcou a minha infância foi “correr”. Corri a Rua 3 de uma ponta a outra, em quase todos os becos em que ela se desdobrava. Brinquei de pique pega, pique esconde, pique alto, pique gelo, pique junto, pique bandeirinha, pique bola nas costas e pique fruta. Provavelmente estou me esquecendo de algum.

Fui criado com dois primos de idades semelhantes à minha, e dividíamos o mesmo gosto, e o mesmo pique para brincar de pique. Lembro-me que chegou um momento em que todos os piques pareciam iguais, então começamos a repensar os jeitos de brincar de pique e criar novas brincadeiras. Inventamos, por exemplo, o pique esconde de contar até 10 rápido. Uma mistura de pique pega com pique esconde, pois a gente tinha que primeiro correr muito pra depois (longe da vista do pegador), se esconder. Tive uma infância saudável e feliz, a falta de espaços adequados para brincar não foi um problema, pois nossa ligação com o lugar onde morávamos era muito grande, por isso brincávamos na rua com a mesma confiança e inocência como quando brincávamos em casa. Andávamos descalços, tomávamos banho na bica, na chuva (e isso era muito divertido), e tudo era muito gostoso e divertido. Hôoo Saudadeeeee!